Entre o Céu e a terra existe mais do que a linha do horizonte, muitos se reduzem a isso, outros só se encontram no cálice servido transbordante de expiação. Uma mão sagrada serve o cordeiro. Os sacramentos sempre foram executados em sangue e no fim o cálice deve tombar vazio sobre a mesa.
Num gesto suave ajeita o chapéu, detém-se, antes de devolver as mãos aos bolsos, esticando os colarinhos da gabardina, estranha coreografia numa noite em que há muito deixou de chover e não faz frio. A montra em frente devolve-me este pequeno ritual. Sinto-me na pele de um desses heróis, que mais do que um disfarce, se transfiguram no seu fato de performer. A imagem que de mim contemplo é a encenação perene do que me é exigido. Mas, é cedo demais para antecipar o que a seu tempo será revelado.
O caminho possível, diante de mim, estende-se entre as poças de água. Sobre elas, cintilante, a escassa luz da rua reflecte montras e faróis. Vozes saem dos cafés misturando-se com os protestos dos transeuntes, salpicados, empurrados por motoristas pouco cuidadosos. Acima deste clamor arrastam-se buzinadelas, quase sempre acompanhadas de um insulto. Um forte cheiro a fritos, convida-nos a ficar fora destes cafés, a noite não oferece qualquer abrigo.
Caminho por entre sons, fugindo aos fumos que se escapam das janelas. Fixo-me no contorno escuro que a noite descreve sobre os telhados. Temos ainda muito tempo.
A noite revela-se propícia e pede cor, de um vermelho vivo, esguichado num último fôlego, suspiro interrompido de olhos petrificados, abertos, onde um último vestígio de luz se apaga para sempre. De preferência numa dor contida e abafada.
- Perdão, queira desculpar...
Um moço de casaco amarelo esbarra comigo, ao sair duma tabacaria para baixar as grades. São horas de fechar. Entro, a loja está vazia, adormecida na penumbra. Aguardo. O jovem espreita para dentro e grita-me: - Só se for coisa simples, que estou mesmo a fechar.
Indiferente aponto para a máquina do tabaco, mas é aquele amarelo vivo que tudo decide, é um rasgo na noite, uma insinuação, mas ainda não da cor certa, pelo menos ainda não por breves instantes...
O jovem entra e debruça-se sobre o balcão para destrancar a máquina do tabaco. Sobre o altar o cordeiro estava servido. O convite era irresistível.
Escassos foram os pormenores que saíram no dia seguinte na imprensa, que o assassino conhecia a vitima, pois esta deixara-o entrar depois de já ter fechado o estabelecimento, que pela brutalidade do mesmo, fora crime passional ou ajuste contas, porque nada fora roubado. No bloco de notas do inspector chefe, meia dúzia de pormenores bem guardados, revelavam que o assassino era alto e forte, capaz de movimentar com destreza um corpo de 70kg, que tudo fora executado como se de um ritual se tratasse e que seguramente voltaria a repetir-se. A sublinhado, um pormenor a que dava particular atenção... a máquina de tabaco estava destrancada!
A noite era o altar de um deus insaciável. Inconscientes os cordeiros empurravam-se uns aos outros vindo ao encontro da mão certeira, cumprindo o seu destino. Eu, o cálice sacerdotal da última confissão.
O golpe era forte e certeiro. Conciso, sentia-lhes a respiração quebrar-se em ritmo, os olhos a esvaziarem-se, a sua confissão não me pertencia escutar, mas sentia-a saindo forte, como segura era a vida a esvair-se. Mistério do sacrifício consumado. A mão sacerdotal que o aplicava estava abençoada por Deus.
Pela manhã, tranquilo, retomo a minha rotina.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)


14 comentários:
Sim senhor, muito bem, permite-me te deixar uma santa pascoa, volto mais tarde para ler melhor...
A partir de uma notícia, um conto. O ponto de partida pode ser fabulosamente rico, sem dúvida.
Mas depois é preciso mandar o Miniscente para o caralho e ser o António todo novamente, aquele que eu amei por ele mesmo, salvo seja, na escrita dele, a regressar por inteiro à sua escrita e ao seu texto.
O rigor mortis dos mestres. O controlo dos mestres. O ascendente publicado e lido dos mestres tem de ser, depois de bem estudado, ouvido e medido, rejeitado, para que nós afloremos por inteiro e como absolutos Édipos conscientes.
O que em mim te parece preguiça e improviso, António, tem uma vida inteira atrás a gerar novidade e sustentação. Os Miniscentes-chatos, fascinantes a enformar-nos e a conformar-nos à medida tirânica do seu gosto e das suas manias, podem ser muito requisitados para grandes colóquios, podem ver os seus críticos escreverem artigos e até livros sobre eles, mas são chatos. Miniscentes e chatos.
É preciso, tal como na Educação, desregulamentar a escrita e deixar que um homem ambicioso e incansável e insaciável todo se foda por ela, amarfanhado no seu orgulho fecundamente estéril, relegado, escondido, esquecido dos outros, sobretudo dos críticos e dos mestres, até à justa e devida Ressurreição, caso a mereça. Enquanto não sei se a mereço, vou correndo e lutando para ela. Vou. Faço. Executo o mandamento primeiro de me ser e não ser cópia de Miniscente nenhum.
A receita do sucesso é saber sofrer o anonimato e o lado tosco e por burilar do próprio génio, caso ele exista.
Se me roubassem e cerceassem e controlassem-em-Cahora-Baça-dique, a minha improvisação-Niagara, matar-me-iam de desgosto.
É isso que tu queres, é, António? É? É? É?
PALAVROSSAVRVS REX
Josh, a escrita é um instrumento. Se o sabes tocar, aprender a dar-lhe tonalidades miniscentes, é levar o seu domínio a um nível e a um campo que por ti mesmo, não te atreverias. A mão do mestre empurra mais do que orienta.
É claro que é mais fácil escrever de improviso, do que rever, cortar, trazer ao de cima o essencial.
Todas as regras são para se perverter, se algum dia as tivermos conhecido e aprendido a dominar.
A minha minisciente experiência, é antes de mais um acto de coragem, depois segue-se-lhe a humildade (tu meu caro Josh, vês os miniscentes como vendedores no templo, mas o que farás tu em três dias?), e finalmente trabalho, trabalho e trabalho.
Eu sei que a tua escrita tem uma vida inteira a gerar novidade e sustentação, e acredito nela, mas o Niágara não se deve assustar se uma canoa o atravessa.
Adoro quando tu ficas zangado, embora ache que o texto beneficiava de uma revisão mais apurada... ;)
Emtão o rapaz de casaco amarelo estada predestinado a morrer...
Uma coisa... o rapaz foi morto por encomenda ou por obcessão, porque o autor do crime achava que ele tinha que morrer?
Raiz, temos duas versões de um mesmo input: o rapaz do casaco amarelo. Na segunda história ele morre.
Não sabemos se porque na noite uma mão sagrada serve o cordeiro, se porque a noite estava propícia e pedia cor, se este estava já a terminar e pedia algo simples, que não o atrasasse. Ou talvez, simplesmente esse fosse o seu destino.
Fica por aqui, talvez os próximos capítulos revelem algo mais.
Fico à espera =)
António, cá para o meu gosto é "literatura" a mais. Belo exercício, sem dúvida, mas é preciso pensar no seu leitor, a escrita não existe por si própria, só tem a vida que ela é capaz de gerar no leitor.
É um virus a escrita, ao penetrar na cabeça do leitor desata a multiplicar-se em emoções, sentimentos, ideias. Mas se o virus está demasiado enrolado em si próprio, fica inócuo.
Isto para mim, é claro... outros têm gostos muito diferentes! De qualquer maneira, este texto é um magnífico atestado da sua mestria!
Alf, nunca é literatura a mais, ou é boa ou não...
Se não prende o leitor, se não o envolve, se este não se perde no texto, então o exercício não vale a pena. É isso que me diz? É uma estucha ler este texto?
Tu escreves de facto muito bem, quem me dera ter um terço dessa tua grande capacidade.
Para quando um livro?
Um abraço e boa páscoa.
uau meu amigo,
prosa quase poética.
A paleta de cores com que tu pintas é fabulosa.
O enredo, as motivações das personagens, são quase irrelevantes em face da literatura exposta.
lê-se pelo simples prazer de ler.
Pintor e Poeta.
Boa Páscoa para todos.
É um belo texto, antónio, qual estucha qual quê! Mas não é fácil este texto, exige que o leitor nele se demore.
na primeira leitura escasseou-me o tempo, não acertei a velocidade de leitura com a de compreensão, troquei as pernas logo no primeiro parágrafo e acabei por me estatelar ao comprido a meio do texto, entornando o sangue antes do tempo.
Vou lê-lo mais vezes porque está muito bom, agora que sei que é poesia.
Lamento contradizer a maioria, mas não compro!
A bit Jack, the Ripper like, isn't it? The ritualising of death, the remorseless feeling, the accuracy of the carnage, the mysterious murderer. And, most frightening of all, our own seduction by the killer. You like him and so do we. Confess.
Happy Easter Antonio!
Blonde, estou chocado! (bem, talvez não...)
Fa, talvez me desdobre em heterónimos.
Alf, o ritmo dos blogs é enganador. Por vezes quando leio os textos do Manuel, acontece-me o mesmo. O ritmo tem que se adaptar e permitir saborear o texto.
Anonimodenome, como sempre uma intervenção de fino recorte literário e emoção.
Casemiro, talvez publique aqui o livro, no meu blog.
Postar um comentário