Olho o céu: é noite fechada e, por cima dos telhados, alastra o clarão sanguíneo das luzes e passa confuso o clamor das buzinas dos autos.
- Perdão, queira desculpar...
Um moço de casaco amarelo esbarra comigo, ao sair duma tabacaria para pôr os taipais. São horas de fechar. Entro, um velho imóvel com um cigarro entre os dedos, borrão de cinza pendendo sobre uma chávena, está sentado na mesa do canto. Tudo parece suspenso no tempo e a meia-luz, a salvo do reboliço exterior. Lanço um aceno de cabeça ao velho, que fica sem resposta e dirijo-me ao balcão. Não me apetece nada, apenas desfrutar daquele silêncio enquanto não retomo a marcha à procura do número 13, onde Ahmed me espera com uma encomenda de tapetes que devo levantar. Sou um elemento de passagem neste estranho mundo, escassa a minha missão, de mau augúrio pelo desagrado daquele número fatídico.
- O que vai ser? - pergunta-me o jovem esgueirando-se por detrás do balcão. Fito os frascos de tabaco, incapaz de decifrar os rótulos, escritos à mão, peço tabaco para cachimbo, não muito forte – duas onças – antecipo-me. Reparo então que o empregado me serve do último frasco, impossível não os contar, impossível não reparar que me fora destinado o décimo terceiro frasco. Atrás de mim o velho estremece num esgar de tosse. A loja do Ahmed parecia-me agora mais próxima...
sábado, 15 de março de 2008
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14 comentários:
“Fica o número 13...
Com este número odioso gravado na retina, ponho-me a andar a toda a pressa. Procuro as ruas mais estreitas, onde há menos luz e o movimento é menor. Na penumbra, avultam carroças de muares enormes e tranquilas roendo o jantar com as cabeças mergulhadas nas alcofas. Junta-as gente nas tabernas, donde sai um rumor grosseiro de vozes e de louças que se entrechocam, e um fumo acre de azeite queimado e peixe frito. Um fumo azul... Olho o céu: é noite fechada e, por cima dos telhados, alastra o clarão sanguíneo das luzes e passa confuso o clamor das buzinas dos autos.
- Perdão, queira desculpar...
Um moço de casaco amarelo esbarra comigo, ao sair duma tabacaria para pôr os taipais. São horas de fechar. Entro e peço um copo de água. Há luz de gás, como noutro tempo. Lembrou-me agora a Baixa vasta e sossegada, que a melancolia verde do gás iluminava, a Baixa da minha infância, com o seu ar tão simples e honesto, limpa e discreta... E sinto saudades.”
(José Rodrigues Miguéis, Páscoa Feliz, Estúdio Cor, Lisboa, 1974)
Hum...
Trata-se de um exercicio de reescrita ?
Gostei !
Está escorreito ! E transmite bem a "densidade" do ambiente onde decorre a acção.
Sim, a ideia era alterar-lhe o final. Dentro de dias publico a segunda versão.
Muito bem, gostei amigo Antonio, estás de facto num bom caminho.
Espero que Ahmed venda legítimos tapetes persas!
Tiago, achas que o 13 me favorece?
Quint, tu que lhe sabes o nome diz-me-lá...
hummm.... muito melhor que o meu exercício!
Lembraste-me de Fez e de um Ahmed que lá conheci que ainda deve estar muito danado comigo (enfim, a malta é uma ocidental impenitente e empedernida, fazer o quê?)!
Mas deixa lá que pior que o 13 só o 14 (morte certa) para os orientais:) Tirando isso, fiquei, comme d'habitude, um tanto ou quanto baralhada do neurónio!
Já estava com soudades do Sem Penas e da sua escrita =)
Optimo texto!
Fico à espera da segunda versão, enquanto isso vou por a minha leitura em dia =)
Então quando é que entras na loja do Ahmed?
Olá António esqueci-me de lhe dizer que criei um novo blog =)
Gostava de o convidar a espreitar...
mettodo.blogspot.com
Ou pode sempre clicar no link do nome =P
Passei mesmo só para desejar uma Santa Páscoa!
Engraçado António, também já fiz este exercício de escrita. Se bem que o teu está mais giro hehe
13 beijinhos***
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